O tratamento dos transtornos de personalidade evoluiu significativamente nas últimas décadas, superando o antigo pessimismo terapêutico que considerava estas condições como essencialmente crônicas e refratárias a intervenções. Evidências contemporâneas demonstram que abordagens estruturadas e específicas podem produzir melhorias significativas em sintomas, funcionamento psicossocial e qualidade de vida.
O tratamento geralmente requer intervenções prolongadas e multimodais, com ênfase em psicoterapias especializadas e abordagem integrada das comorbidades frequentemente presentes.
Terapia Comportamental Dialética (TCD)
Desenvolvida por Marsha Linehan especificamente para o transtorno de personalidade borderline, combina técnicas cognitivo-comportamentais com práticas de mindfulness. Estruturase em quatro módulos: mindfulness, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal.
Evidências robustas de eficácia na redução de comportamentos suicidas, autolesivos e uso de serviços hospitalares.
Terapia Baseada na Mentalização (TBM)
Desenvolvida por Bateman e Fonagy, foca na capacidade de compreender estados mentais próprios e alheios. Particularmente eficaz para o transtorno de personalidade borderline, melhorando a regulação afetiva, funcionamento interpessoal e reduzindo comportamentos autolesivos através do desenvolvimento da função reflexiva.
Terapia do Esquema
Integra elementos cognitivocomportamentais, psicodinâmicos, de apego e experienciais. Foca na identificação e modificação de esquemas precoces mal-adaptativos e modos de esquema. Eficaz para diversos transtornos de personalidade, incluindo borderline, evitativo e obsessivocompulsivo.
Além destas abordagens específicas, outras modalidades psicoterapêuticas também demonstram eficácia para determinados transtornos de personalidade:
Terapia Focada na Transferência (TFT): Abordagem psicodinâmica estruturada desenvolvida por Kernberg para o transtorno de personalidade borderline, focando nas relações objetais internalizadas que se manifestam na relação terapêutica. Demonstra eficácia na melhoria do funcionamento reflexivo, relações interpessoais e organização da personalidade.
Psicoterapia Cognitivo-Analítica (PCA): Integra elementos cognitivos e psicodinâmicos, com foco na identificação de padrões relacionais problemáticos (procedimentos recíprocos) e sua reformulação. Útil para diversos transtornos de personalidade, especialmente em formatos breves.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Adaptações específicas para transtornos de personalidade, com ênfase em crenças nucleares, padrões comportamentais persistentes e habilidades interpessoais. Particularmente útil para transtornos dos Clusters B e C.
STEPPS (Systems Training for Emotional Predictability and Problem Solving): Programa de tratamento grupal estruturado que complementa outras terapias, focando em habilidades de regulação emocional, consciência da doença e manejo comportamental.
Intervenções Farmacológicas
Não existem medicações aprovadas especificamente para o tratamento de transtornos de personalidade como um todo.
Princípios Gerais do Tratamento
Independentemente da abordagem específica, alguns princípios gerais mostram-se importantes para o manejo efetivo dos transtornos de personalidade:
Aliança terapêutica colaborativa: Estabelecimento de relação respeitosa e empática, com reconhecimento da autonomia do paciente e construção conjunta dos objetivos terapêuticos.
1.
Estrutura clara e consistente: Definição explícita do enquadre terapêutico, limites, expectativas e responsabilidades, proporcionando previsibilidade e segurança.
2.
Abordagem longitudinal: Reconhecimento da natureza crônica dos transtornos e necessidade de perspectiva de longo prazo, com foco tanto em crises agudas quanto em mudanças estruturais.
3.
Manejo das comorbidades: Atenção integrada aos transtornos comórbidos frequentes, como depressão, ansiedade e uso de substâncias, que podem exacerbar os sintomas do transtorno de personalidade.
4.
Prevenção de crises e gestão de riscos: Desenvolvimento de estratégias específicas para momentos de crise, incluindo planos de segurança para comportamentos suicidas e autolesivos.
5.
Trabalho em equipe multidisciplinar: Coordenação entre diferentes profissionais e serviços envolvidos no cuidado, com comunicação eficiente e consistência na abordagem.
6.
O tratamento dos transtornos de personalidade requer frequentemente adaptações específicas conforme o tipo de transtorno, gravidade, motivação para mudança e recursos disponíveis. A flexibilidade terapêutica, combinada com fidelidade aos elementos centrais de intervenções baseadas em evidências, constitui aspecto crucial para resultados positivos.
Francisco Braga - Psicanalista, Neuropsicanalista, Neuroterapeuta com Hipnose e Especilaista em Saúde Mental